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Entrevista: Shadowside (Brasil)



A Entrevista desta semana é com a banda paulista Shadowside, que atualmente é formada por Dani Nolden (Vocal), Raphael Mattos (Guitarra), Magnus Rosén (Baixo) e Fabio Buitvidas (Bateria). Realizamos uma entrevista exclusiva com a vocalista Dani Nolden, onde ela nos fala um pouco do inicio da carreira da banda do novo álbum "Shades of Humanity", lançado este ano é muito mais, confiram a seguir:

EC - Primeiramente gostaria de lhe agradecer Dani por ter aceitado realizar a entrevista. Como é a nossa primeira entrevista, você poderia falar um pouco como surgiu a ideia de formar o Shadowside?                                
Dani: Eu que agradeço pelo espaço! A banda basicamente veio da paixão pela música, nada além disso... o Shadowside nasceu meio que no estúdio, com a intenção de registrar de forma permanente as músicas que tínhamos na época. Gravamos um demo EP, enviamos para algumas revistas, e a reação foi tão forte e surpreendente que acabamos decidindo levar a banda mais a sério, dar uma chance àquela ideia para ver até onde ela nos levaria... e aquela diversão de adolescentes que curtiam heavy metal acabou virando uma banda que superou todos os meus sonhos e tocou em 30 países ao redor do mundo. Tudo ainda parece meio surreal. Parece que estou contando a história de outra banda (risos). Mas é a banda que comecei a planejar aos 14 anos de idade.

EC - Nós anos de 2011, 2012 e 2013, você ganhou na votação do Whiplash, a melhor vocalista feminina nacional, o que é bem significativo já que é o público que escolhe os vencedores. Como você se sentiu em relação a isso?
Dani: Muito honrada, especialmente porque tem muita mulher cantando demais em bandas excelentes, então fiquei muito feliz e grata pelo apoio do público. Meu estilo de cantar sempre foi bastante passional, sempre coloco tudo aquilo que sinto na voz, o que torna tudo ainda mais pessoal pra mim. Eu não vejo a música como uma competição, mas é claro que ser colocada em uma posição dessa pelo público é algo muito especial e um reconhecimento enorme.

EC - A cada ano que passa mais mulheres estão ingressando no mundo do metal, seja como parte das bandas ou na produção de shows, e o próprio público feminino têm aumentado. Mas mesmo nesse cenário, existe muito radicalismo e machismo. Você já sofreu algum tipo de preconceito no meio do metal? E o que você diria para as mulheres que gostariam de fazer parte de uma banda ou vivem a cena?
Saarbrücken Alemanha  2013  by Costabile Salzano
Dani: O único “preconceito” que “sofri” foi antes do segundo show da minha carreira, quando uma das bandas que ia tocar viu que eu era a vocalista, então começou a brincar imitando vocais líricos e dizendo que tínhamos 5 tecladistas na banda, porque bandas como Nightwish eram a grande febre daquele momento, e praticamente não existia outro tipo de banda com mulheres no vocal naquela época. Só que eu não fiquei ofendida, primeiro porque ser um “Nightwish” seria na verdade um elogio (risos). Mas eles achavam que éramos mais uma cópia das bandas populares daquele período, e achavam que mulher só fazia música “leve”. Nós costumávamos tocar alguns covers na época, pois tínhamos só aquele demo EP lançado, e foi bem engraçado ver a reação deles quando começamos “Painkiller”, do Judas Priest (risos).
Sinceramente, hoje não vejo esse machismo todo. Só acredito que ele exista porque outras meninas relatam, mas eu nunca senti isso na pele e acho de verdade que não exista mais alguém que se recuse a ouvir uma banda só porque tem uma mulher cantando ou tocando na mesma. Se o cara for machista, ele pode até não admitir que gosta, mas a música é algo tão poderoso que ninguém resiste a algo que escuta e gosta, então ele pode até fingir que não curte, mas vai ouvir escondido no quarto ou no fone de ouvido (risos).
Só posso dizer para as mulheres que vivem ou querem viver a realidade de uma banda, ou do trabalho nos bastidores, o seguinte: VENHAM! E venham sem medo! Venham com força, com confiança, mostrem o trabalho de vocês, que no instante que vocês subirem no palco e fizerem um som de qualidade, machismo algum vai resistir. Machismo não se combate com briga, se combate com fato... e qualquer homem que por acaso ainda pense que mulher não sabe fazer heavy metal vai ver que ele estava enganado quando ele ouvir algo que ele curta. A grande maioria dos fãs do Shadowside é formada por homens, e além de eles sempre terem nos dado muito apoio, eles sempre mantiveram o foco na música. Temos um público feminino bem grande também, que sempre nos dá muita força, mas como hoje temos acesso aos números de redes sociais, podemos ver que mais de 70% dos fãs do Shadowside são homens, então não posso falar que nossos fãs são machistas.

EC - Podemos dizer que o terceiro álbum do Shadowside, o “Inner Monster Out” é um divisor de águas na carreira da banda, certo? Com o álbum vocês conquistaram projeção mundial. Levando a Shadowside a vencer o 11º Independent Music Awards por votação popular, um conceituado prêmio norte-americano, na categoria Melhor Álbum de Metal/Hardcore. Você imaginava que o álbum fosse ser tão marcante na carreira da banda?
Dani: Não, nós não tínhamos ideia, especialmente porque foi nele que começamos a fazer as músicas da maneira como fazemos hoje, de forma espontânea, procurando agradar a todos os membros da banda, trabalhando todas as músicas como um grupo até que todos fiquem orgulhosos do trabalho. O “Inner Monster Out” foi o álbum que iniciou tudo isso, foi um álbum que fizemos para agradar primeiro a nós mesmos, fizemos as músicas do jeito que nós gostamos de ouvir e de tocar, e felizmente, o público gostou dele tanto quanto nós!

EC- Atualmente vocês são uma das bandas nacionais com mais repercussão no exterior. Tendo realizado turnês em mais de 30 países diferentes. Como é tocar em países que muitas vezes tem uma cultura bem diferente do Brasil? Você já passou por alguma situação engraçada ou alguma experiência inusitada no exterior que poderia compartilhar conosco?
Bochum Alemanha 2013 Foto: Costabile Salzano
Dani: Sim! Esses choques culturais são sempre muito interessantes e sempre provocam algumas situações curiosas. Acho que o maior deles foi na Finlândia. O povo finlandês respeita muito o espaço alheio, eles são reservados, contidos. Quando tocamos lá pela primeira vez, estávamos acostumados com o público brasileiro, e com o pessoal da Europa que é tão intenso nos shows quanto a galera aqui no Brasil, como os fãs na Espanha, Itália e Polônia. Então chegamos na Finlândia, e o público ficou bastante quieto e muito atento praticamente o show inteiro. Quando eu chamava pra eles interagirem conosco, eles interagiam de uma forma meio tímida, e pensamos “eles devem estar achando o show uma droga” (risos). Felizmente, uma amiga nossa, que nasceu no Brasil, mas é filha de um finlandês e mora lá, nos disse que o fato de eles terem ficado tão atentos era um elogio enorme para um finlandês, porque todos eles têm aulas de música nas escolas, todos eles tocam um instrumento, então se eles param para ouvir algo, é porque estão gostando. Se não estiverem, eles simplesmente ficam bebendo no bar esperando a próxima banda. Então ficamos mais tranquilos, mas ainda assim estávamos achando estranho que ninguém chegava perto de nós depois do show. Nós sempre ficamos na banca de merch, caso alguém queira comprar um CD, tirar uma foto, bater papo... e as pessoas sempre vêm logo que chegamos, mas os finlandeses não vieram, então estávamos cada vez mais convencidos de que não tínhamos sido aprovados (risos). Porém, essa nossa amiga de novo nos ajudou demais. Ela apontou para um rapaz e disse: “estão vendo aquele rapaz olhando pra cá, mas mantendo distância? Ele está esperando vocês chamarem pra ele saber que está tudo bem se ele vier”. Então nós começamos a fazer gestos para as pessoas que olhavam pra nós, convidando para que eles chegassem perto. E eles começaram a chegar, dizendo como tinham adorado o show e queriam comprar todos os álbuns (risos). Sem essas dicas dela, nós teríamos saído de lá arrasados e talvez nunca teríamos voltado para a Finlândia (risos). Depois disso, tocamos lá novamente e já sabíamos como o público agia, então tudo fluiu de forma mais natural e sabíamos como sinalizar pra eles que estávamos lá pra interagir com eles mesmo. Essas diferenças de comportamento são muito legais, a gente passa pouco tempo em cada país, mas dá pra ver um pouquinho de como é o povo de cada local.


EC - Agora vamos falar um pouco do mais recente álbum do Shadowside, o “Shades of Humanity”, ele é o primeiro álbum com o Magnus Rosén (ex-Hammerfall) assumindo permanentemente o baixo na banda. Como ocorreu essa parceria, que resultou nele como um membro definitivo da banda? O que essa mudança na formação influenciou na criação do novo álbum?
Dani: Inicialmente, nossa ideia era apenas chamar alguém pra gravar o álbum, porque não queríamos apressar a escolha do baixista definitivo da banda. Basicamente, todos os problemas que tivemos de mudança de formação no passado teriam sido evitados se tivéssemos sido um pouco mais pacientes, porque as pessoas às vezes não são compatíveis, têm planos diferentes, então pensamos em um baixista provisório para que depois pudéssemos escolher o novo membro com calma. Como já tínhamos o plano de gravar na Suécia, imediatamente lembramos do Magnus, porque sempre o admiramos demais como músico e todos nós o consideramos um dos melhores baixistas de Heavy Metal do mundo. Nós já havíamos sido apresentados no show que fizemos com o Helloween na Suécia, então eu decidi entrar em contato e perguntar se ele topava gravar conosco, e ele disse que sim. Então conversamos um pouco sobre a forma de compor da banda, como trabalhamos sempre em equipe, sobre os planos, e logo ficou evidente que o Magnus pensava de forma bem parecida que a gente, e tudo estava fluindo tão bem e tão naturalmente que fizemos o convite “oficial” e perguntamos se ele queria ser membro efetivo da banda... e ele, como você já sabe (risos), aceitou! Ele gostou muito do fato de sermos brasileiros, porque ele adora o Brasil, e uma das coisas que contou bastante para que ele aceitasse entrar na banda foi por nós fazermos as músicas em equipe, gostamos que todo mundo na banda tenha a oportunidade de compor, e ele adorou essa ideia. Ele tinha algumas músicas que ele tinha feito com o Andy La Rocque, guitarrista do King Diamond e nos ofereceu algumas que ele achava que tinham a cara da Shadowside... e tinham mesmo! O Fabio e o Raphael mudaram alguns arranjos e riffs, eu acrescentei a melodia e as letras, e no final das contas, tínhamos duas músicas, “Unreality” e “Haunted”, que vieram do mais novo membro da banda!
SoH é o quarto álbum de estúdio do Shadowside
Acredito que a maior influência da entrada dele na banda foi o espírito de equipe dele e como ele já entrou “vestindo a camisa”. Ele se encaixou perfeitamente conosco. Eu, o Raphael e o Fabio temos um jeito de trabalhar muito peculiar, que nunca funcionou muito bem com outras pessoas, principalmente pelo fato de sermos muito diretos e sinceros uns com os outros. Nós três sentimos que não faz muito sentido ficarmos de rodeios quando temos que falar que algo está ruim, porque entendemos que quando fazemos uma crítica entre nós, não é pra magoar ou irritar, é pelo bem da banda, e porque sentimos que pode melhorar... não faria sentido perder tempo criticando algo se sentíssemos que não tem como sair algo mais interessante dali. E o Magnus pensa da mesma forma... ele elogia quando tem que elogiar, e critica tudo aquilo que ele acha que deve, e entende perfeitamente que nós gostamos muito das “diferenças musicais” que muitas vezes acaba com bandas... nossa identidade vem justamente dessas diferenças, porque nós somos obrigados a criar algo que quatro pessoas com gostos totalmente diferentes curtem.
Então, o Magnus veio com uma experiência musical enorme, influências totalmente diferentes, e chegou engajado, interessado, disposto a levar a banda pra frente, então essa atitude dele influenciou muito no clima das gravações, porque, pela primeira vez em toda a nossa carreira, finalmente todos nós estávamos formando um grupo, uma equipe de verdade. Mesmo depois de terminar de gravar o baixo, ele continuou indo ao estúdio, sempre querendo ouvir o que tínhamos feito. Ver todo esse interesse e vontade de trabalhar pela banda, vindo de um cara que tinha acabado de se juntar a nós, e que já foi indicado ao Grammy e tem vários discos de ouro na carreira, deixou muito claro pra nós como ele era o cara certo pra Shadowside.

EC – As temáticas trabalhadas no “Shades of Humanity” são muito amplas, mas uma música em especial chamou muitíssimo a minha atenção, principalmente pela excelente letra, e gostaria que você falasse um pouco dela, a “Stream of Shame”, como foi escrever uma música para um momento tão difícil da história recente do Brasil, o desastre de Mariana? 
Dani: Aquele desastre me chamou demais a atenção... normalmente eu sou bem “fria” com relação a notícias e desastres, mas algumas coisas acabam mexendo bastante comigo, e o desastre de Mariana foi uma dessas coisas. Todo o impacto ambiental, toda a destruição da vida das pessoas, seja pelas mortes em si, seja pelas perdas materiais de uma vida inteira, tudo causado pela ganância, o que é vergonhoso para todos nós como brasileiros e como seres humanos, e por isso o nome da música é “Stream of Shame”, que significa em uma tradução livre “rio da vergonha”, em português. Agora se discute de quem é a culpa, muitas pessoas ainda não foram indenizadas, e a realidade é que tudo isso foi causado por ganância, pela busca desenfreada por lucros... é a sede interminável do ser humano pelo dinheiro e pelo poder que o dinheiro traz, só que ‘dinheiro não se come’, e a vida humana e o meio ambiente valem muito mais do que qualquer fortuna. É simplesmente vergonhoso que a humanidade seja capaz de produzir esse tipo de destruição a troco de nada.

EC – O “Shades of Humanity” também trata de outros assuntos que geram bastante discussão na sociedade, como o aborto e a depressão. Você poderia falar um pouco do conceito do álbum? Como surgiu a ideia de trabalhar esses temas nas músicas? 
Dani: Eu estava passando por um período bem obscuro e introspectivo na minha vida, e como os meninos deixam a tarefa de escrever as letras comigo, acabei escrevendo sobre tudo aquilo que estava me fazendo refletir naquele momento. Percebi que todos nós, seres humanos, somos capazes de atos extremos - ao mesmo tempo que podemos destruir tudo ao nosso redor, também somos capazes de nobreza nas atitudes. A natureza humana é caótica, e nenhum de nós é totalmente “do bem” ou “do mal”, por melhor ou pior que alguém seja, tudo que é relacionado à moralidade humana é feito de vários tons de cinza, então o nome do álbum brinca com os tons de cinza e com a humanidade, trazendo “tons de humanidade”. O aborto e a depressão estão bem inseridos nesses “tons de cinza”, porque muitas vezes julgamos o assunto a partir de um ponto de vista simplório, de uma convicção pessoal, mas não analisamos tudo aquilo que está em jogo, o que a pessoa está sentindo, o que todos ao redor estão passando, nada é simples. A música que fala sobre o aborto é “What If”, e traz a ideia do ponto de vista de um embrião, que está sentindo que sua mãe está sofrendo e lutando contra a própria consciência, decidindo se deve realizar um aborto ou não, e o embrião já a ama tanto que quer se sacrificar e morrer para que ela não sofra mais. É claro que é só uma história, mas é para ilustrar que sempre existem vários pontos de vista, além de várias situações que parecem simples para quem não as vive. “What If” não é um julgamento contra quem aborta, é apenas uma constatação de que existem dois lados nessa situação, e que as pessoas são constantemente confrontadas com questões éticas. Muitas vezes, somos obrigados a tomar decisões que vão contra nossos valores, e a decisão de abortar ou não pode ser uma delas. 

Foto de divulgação do clipe "Alive"
EC - O clipe do primeiro single do álbum “Shades of Humanity”, “Alive”, é praticamente um curta metragem, é de tirar o fôlego! Como foi o processo de criação e gravação do vídeo clipe? Vocês pretendem seguir essa linha nos próximos vídeos?
Dani: Nós adoraríamos fazer mais vídeos assim! Quem dirigiu o videoclipe de “Alive” foi o Daniel Stilling, que já trabalhou no seriado “Criminal Minds” e no filme “Perdido em Marte”, e ele montou uma equipe fenomenal para esse trabalho, incluindo o produtor Adam Neal Gonzalez, que trabalhou com o Audiotopsy e está bastante acostumado a trabalhar com clipes e filmagens de várias bandas renomadas. Não temos planos para outro videoclipe no momento, mas se no futuro tivermos a chance de nos reunirmos com o Dan novamente, com certeza vamos aproveitar a oportunidade! Realmente o vídeo é um curta, deixamos o Daniel completamente livre para criar, e ele expressou o que viu na letra da “Alive” – histórias de superação e de luta pela vida, ilustradas pelos quatro membros da banda, cada um representando um elemento da natureza, por isso o ele deu ao filme o título de “Survival of the Four Elements – a Sobrevivência dos Quatro Elementos”. Foram 3 dias de filmagem, extremamente intensos, cansativos, iniciávamos logo cedo, às 6 ou 7 da manhã, mas só conseguíamos voltar ao hotel por volta de meia-noite. E eu ainda tinha que tingir meu cabelo todos os dias, porque estava com o cabelo tingido de roxo, a tinta desbotava um pouco depois da lavagem, então foram 3 dias lavando e pintando o cabelo depois de uma maratona de filmagens, foi algo meio insano (risos). Mas valeu a pena porque o resultado ficou incrível.
  
EC - Novamente gostaria de agradecer por terem aceitado realizar a entrevista para o Elegia e Canto. Vocês poderiam deixar uma mensagem para os nossos leitores e fãs do Shadowside?
Dani: Eu que agradeço pelo espaço e por todo o apoio! Espero que curtam o novo clipe “Alive” e o novo álbum “Shades of Humanity”, e nos veremos em breve em algum show!
            
Confira o vídeo de Alive:

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