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quinta-feira, 29 de junho de 2017

Entrevista: Cyber Croatoan (Brasil)



A entrevista dessa semana é com a banda Cyber Croatoan, diretamente de Goiânia a banda mostra a força de toda cena underground do centro-oeste. Fazendo uma mistura de varias influências dentro do metal, a banda criou um som único e característico. Conversamos com o fundador da banda Phillipe Cadaverico, onde ele contou a história da banda e planos para o futuro, vamos conferir: 


EC - Primeiramente gostaria de lhe agradecer Phillipe Cadaverico por aceita realizar a entrevista para o Elegia e Canto. Como surgiu a ideia de forma a banda? E como está à formação atual do Cyber Croatoan?
Phillipe: Olá Elegia e Canto, muito obrigado pelo interesse. A ideia de montar a banda surgiu após a minha saída da banda de black metal que eu fazia parte que se chamava Dark Synphorium, qual eu tocava teclado e cantava simultaneamente seguindo a linha do som da banda Miasthênia. Eu sempre gostei do lado obscuro da música e nessa época em 2005 eu estava aprofundado nesse estilo de som. Quando a banda acabou fiquei alguns anos em hiato sem muitas ideias para produzir música. Ai em 2009 eu comecei a ter a vontade de retornar a música e com ajuda de alguns amigos eu descobri programas de estúdio digital que me possibilitava criar todos os instrumentais sozinho enquanto eu não tinha músicos para tocarem nesse projeto. Como o programa tem uns sons meio digitais, sintéticos, começou então a soar algo meio cibernético mas ao mesmo tempo obscuro ainda, ai eu peguei as letras da minha antiga banda e comecei a cantar por cima dessas novas músicas que produzi, até então sozinho. A princípio não era pra ser uma banda de shows nem nada, era apenas um projeto que eu fazia em meu quarto sozinho a fim de expressar os sentimentos. Na época eu não tinha coragem de mostrar ainda para ninguém, só produzi e deixei guardado nesse período. Hoje a formação da banda conta comigo na produção e nos vocais principais, a DJ Ys Caldierre que cuida das partes da discotecagem e efeitos eletrônicos ao vivo e em estúdio, e com a May Lee Satel que foi a última a se juntar ao time cantando as vozes limpas e os corais e alguns guturais como back vocal ao vivo, ainda vamos gravar material inédito com ela esse ano.

EC - Como você teve contato com o metal? Quais são as suas principais influências musicais?
Phillipe: O primeiro contato com o metal e com o mundo underground foi no ano de 2002, eu fui na casa de um primo e ele estava ouvindo algo muito surreal, e eu me lembro bem que perguntei a ele o que era aquilo, e ele me disse que era uma banda que se chamava Tristania. Nesse momento eu simplesmente me apaixonei por aquilo, eu senti que eu tinha finalmente me encontrado em algo. Eu fui uma criança sem muitos amigos e não me dava muito bem socialmente na escola e nem nas ruas, o que me fazia ficar muito tempo sozinho e pensando sobre tudo. O que faltava era uma trilha sonora pra enaltecer aquilo, e eu finalmente tinha encontrado. Ele me emprestou esse cd Windows Weed's nesse dia e eu passei a noite toda ouvindo e tentando entender aquilo tudo, o porquê de eu me emocionar tanto. Foi esse o meu primeiro contato com o metal, desde então até hoje eu sigo firme e não vejo minha vida sem isso.  Minhas principais influências musicais são no geral essas bandas de Gothic Metal e Black Metal como Tristania, Lacuna Coil , The Gathering , Theatre of Tragedy, Nightwish , Cadaveria, Opera IX, Marduk , Emperor e as bandas de industrial Otto Dix , Psyclon Nine, Igorrr, Hocico e outras. No geral tudo dentro da música me influência, desde o eletrônico mais sombrio e psicodélico, ao metal extremo, o folk , o new age como Enya e Bjork. De tudo um pouco.

EC - O Cyber tem um som muito característico. Como surgiu a ideia de introduzir música eletrônica ao metal? De certa forma é um subgênero novo, você poderia falar um pouco sobre ele?
Phillipe: A ideia foi justamente de estar produzindo músicas em programas digitais e estar ouvindo essas bandas de Industrial que citei, vi que era possível levar uma mensagem obscura as pessoas de uma maneira diferente. Eu tinha a certeza de que isso na época traria impacto por ser diferente, particularmente eu sempre quis renovar as coisas em tudo que eu faço, eu não queria ter apenas uma nova banda de metal comum, eu queria mais, eu queria misturar todas essas influências de uma só vez. Nos rotular como industrial de certa forma, soa mais fácil para as pessoas entenderem, porém acredito que somos muito mais do que só isso, porque em nossa música a elementos da música clássica, do death metal, do folk metal, do doom metal, do psycho trance, e tudo isso de uma forma agressiva e ao mesmo tempo depressiva. Teve pessoas que simplesmente se apaixonaram por essa fusão e outras que odiaram com a mesma intensidade hahahaha, o que pra mim é normal, não dá para agradar a todos não é mesmo? Quando algumas pessoas acreditaram nesse novo subgênero e viram que tínhamos capacidade de ir além ai resolvemos expor sem medo das críticas. O primeiro passo importante é você amar o que você faz, isso faz, com que as pessoas comecem a amar também.

EC - A banda é de Goiânia, um lugar nacionalmente conhecimento pela música sertaneja. Como é ter uma banda de metal na cidade? E como é a cena underground de Goiânia?
Phillipe: Incrivelmente a cena de Goiânia é muito forte e tem grandes bandas de nomes como o Luxúria de Lilith, Ressonância Mórfica, Heavens Guardian e outras que nos representa em todo o Brasil e exterior. Acho que em outros estados todos tem essa visão de que aqui o que predomina é o sertanejo, mas na verdade a maioria desses tipos de cantores saem daqui e fazem sucesso fora daqui. Direto tem eventos undergrounds aqui, inclusive de graça nos finais de semanas, com muitos shows onde se misturam todo tipo de pessoas, dos Punks aos Góticos no mesmo ambiente, e todos em sintonia e respeito mútuo, o que ajudou a quebrar muitos estigmas de que os cenários não podem se misturar. Ainda bem que isso acabou.  Ter uma banda assim na cidade é muito legal e divertido, ao mesmo tempo engraçado porque sempre que somos vistos em alguns lugares chegam pessoas pra nos cumprimentar e tirar fotos e muitos até estranham porque eu sou muito acessível e converso com todos quando se diz respeito a nossa música. A ideia é espalhar o som e a liberdade. O sertanejo não nos atrapalha em nada, eu até arriscaria a fazer um dueto com algum cantor sertanejo se eu fosse convidado srsrsr (brincadeira gente) .

EC - O primeiro álbum da banda é o "Past of Pain" (2010), você poderia falar um pouco do conceito do álbum e das músicas?
Phillipe: O conceito do álbum gira em torno de um problema emocional que eu tive nessa época. Na verdade o término de um namoro que me deixou transtornado nessa fase. Quem nunca passou por isso não é mesmo?  Eu acho que eu não estava pronto pra aquela carga emocional que os sentimentos humanos me proporcionaram e perdi o controle completo da minha vida, consequentemente emprego, amigos, tudo foi pelos ares, e me senti totalmente perdido e sozinho.  Comecei então a escrever pequenos poemas, textos sobre isso, quando fui produzindo os instrumentais no programa de estúdio, vi que as letras tinha conectividade com aquele clima que as músicas emanavam.  Claro que no álbum tem outros tipos de temas, como o anti-fanatismo da religião cristã, sobre o governo, sobre a gente ser quem a gente é e ser respeitados por isso. Um pouco de ocultismo também, porque trago isso dentro de mim acho que devido a influência do black metal na minha vida. E acho que combinou bastante no resultado geral. Eu particularmente, hoje em dia ouvindo a produção do álbum, não me agrada muito, eu poderia ter feito melhor com certeza, porém eu não tinha tanta experiência na área, fiz tudo sozinho sem ajuda de ninguém e não sabia direito o que eu realmente estava fazendo hahaha como disse, eu estava totalmente perdido e transtornado com tudo que me vinha acontecendo, tipo uma revolta com tudo do mundo todo. Mas no final foi benéfico, consegui expulsar muitos demônios que me atormentavam a mente e deixei algo para a posteridade. Me orgulho desse trabalho, mas poderia ter feito melhor com toda certeza. Por isso o trabalha se chama: Passado de Dor. Acredito que nunca antes disso eu tinha sido tão sincero comigo e com todos sobre os meus sentimentos.

EC – O Cyber fez á música "Kuarup Rito dos Mortos" ao lado da banda Arandu Arakuaa, misturando o metal indígena com o eletrônico, criaram uma sonoridade única. Como surgiu essa parceria? E como foi o processo de composição?
Phillipe: A ideia surgiu após eu assistir o show deles em um festival que se chama “Anápolis Metal” na cidade de Anápolis. Quando eles subiram ao palco e começaram o som eu achei simplesmente SURREAL e INACREDITÁVEL!!  Uma banda cantando em Tupi-Guarani, cheios de instrumentos indígenas junto com o metal extremo e vocais guturais me deixaram perplexo, aquilo era simplesmente inovador, e eu pulei e bati cabeça o show inteiro e disse pra mim mesmo: EU TENHO QUE FAZER ALGO MUSICALMENTE COM ELES !!!  Entrei em contato com o Zândhio e disse para ele essa minha vontade e apresentei o som da minha banda, e ele aceitou o desafio e começamos a compor. Primeiro buscamos o tema e decidimos falar sobre o ritual Kuarup que é um rito indígena das tribos do xingu. Estudei o tema e vi que o rito era sombrio e sofrido mesmo sendo algo indígena e escrevi para ele sobre isso e ele gostou da letra. Compus a parte dos instrumentais eletrônicos e enviei para ele, e ele juntamente com a banda naquela formação na época, gravaram no estudio as guitarras, e as maracas indígenas e os vocais tanto do Zândhio nas partes indígenas e os vocais da Nájila Cristina (vocalista da banda nessa fase ). Me madaram de volta os arquivos e eu gravei aqui minhas partes de voz e mixei, masterizei, e equalizei toda a faixa. Mandei novamente para eles ouvirem e eles aprovaram o resultado final. Quando liberamos na rede foi um estouro e sou mega orgulhoso dessa parceria icônica. Acho que nunca escutei algo do gênero com outras bandas. Foi realmente algo muito inovador, e desde então mantemos uma boa amizade. Ainda quero tocar essa canção com eles ao vivo, mas com as duas bandas todas juntas, será algo fantástico e ainda vai ocorrer.  O processo todo dessa faixa demorou em torno de 6 meses porque eu sou muito chato em estúdio e o Zândhio também é hahahahahah mas foi benéfico porque a coisa deu certo no final da maneira que nós queríamos. Sou muito grato a eles por isso!!

EC - A sua voz é definitivamente o principal diferencial da banda, indo do gutural ao vocal limpo. Como você consegue administrar técnicas vocais tão diferentes? Tem alguma dica para quem busca cantar com as duas formas?
Phillipe: Muito do que faço com minha voz vem do tal do feeling sabe? Da raça mesmo! hahahha  Essas bandas todas me influenciam demais e faz com que eu queira cantar daquele modelo. Eu misturo o canto operístico e o gutural simultaneamente, vozes infantis, vozes doentias, guturais raivosos e às vezes sofridos. Tudo varia de acordo com o sentimento da música. Eu acredito que em mim existam algumas múltiplas personalidades para que isso ocorra, sim eu sou bem doido mesmo kkkkkkkkk. Mas aliado a isso eu passei a estudar técnicas de aquecimento de voz, estudos para aprimorar o que eu já vinha fazendo. Eu sempre pensei: Porque não um homem cantar com voz lirica feminina e ao mesmo tempo gutural, já que existem mulheres que fazem isso não é mesmo?  E decidi arriscar isso. No início confesso que sofri bastante preconceito, alias com tudo, com minha música, com minha voz, porque sempre me julgam por tudo hahaha hoje em dia eu vejo que isso é bom, porque me encoraja a continuar. Os anos também de prática me ajudaram muito a manter a voz e hoje sou 100% seguro quando canto. Eu realmente amo cantar, acho que é os melhores momentos da minha vida quando eu faço isso, seja pra mil ou uma pessoa só.   A dica que eu dou é buscar aprender a tocar um instrumento para se ter noção das notas musicais para tentar emitir junto com a voz, isso ajuda muito em termos rítmicos, técnicos e tudo mais. Hoje em dia estudo piano clássico, e isso me ajudou muito como entender tudo sobre a voz.

EC - A banda agora está trabalhando na gravação do seu segundo álbum. Você poderia adiantar algumas novidades para gente?
Phillipe: Sim sim, há 3 anos e 5 meses nós viemos trabalhando no nosso segundo álbum oficial, mas acredito que esse será de fato o "primeiro" no que diz respeito a qualidade sonora de fato. Trabalhamos nos mínimos detalhes de tudo, cada pequena vírgula foi estudada dessa vez. As músicas estão muito carregadas de muitos instrumentos, agora reais também como guitarras e bateria que vamos ter com a ajuda de amigos de outras bandas como colaboração.  As novidades é que agora queremos tudo de forma bem profissional, com direito a colocar ele em todas as plataformas digitais para alcançar mais públicos e fazer muito mais shows do que já fizemos nesses últimos anos. E também terá clipe oficial e featurings com alguns músicos de outras bandas que gostamos. Com a entrada da May Lee nos vocais, definitivamente muita coisa mudou e vai mudar, e estamos gostando disso, ela vai poder finalmente cantar e gravar algo vindo definitivamente dela, com as letras que ela mesma escreveu, não apenas as minhas, isso vai fazer com que as coisas tenham mais identidade e não girem em torno apenas de mim, eu quero que elas tenham participação maior no álbum todo. Nossa DJ Ys Caldierre também terá pontos altos no álbum trazendo suas próprias influências eletrônicas na música do novo disco e estamos ansiosos por isso. Agora que vamos finalmente começar a gravar as vozes desse álbum, que é apenas o que falta para o lançamento oficial. Finalmente sai daquela maré baixa de sentimentalismo e poderemos cantar sobre outras coisas além de amor frustrado hahaha. Mas a demora vai valer à pena, podem apostar que vocês vão ouvir falar muito de nós ainda!!!!!

EC - Paralelamente ao Cyber Croatoan, você tem um projeto de músicas mais ambientais com elementos folks, o V.I.T.R.I.O.L.. Poderia falar mais sobre o projeto?
Phillipe: O projeto V.I.T.R.I.O.L. é um como se fosse um espelho para mim. Hoje em dia como me sinto mais confiante sobre tudo na minha vida, ainda preciso de um espelho para de vez em quando olhar para o passado e ver que eu estava certo do que deixei para trás. O passado para mim está morto e enterrado, mas não faz mal às vezes irmos até esse túmulo e deixar algumas rosas em agradecimento por isso né?  V.I.T.R.I.O.L. é a sigla da expressão, do latim "Visita Interiorem Terrae, Rectificando, Invenies Occultum Lapidem", que quer dizer: Visita o Centro da Terra, Retificando-te, encontrarás a Pedra Oculta (ou Filosofal). Ou seja, nos somos o centro de tudo, nos somos os deuses e os demônios do nosso universo interior, nos fazemos da nossa vida o paraíso e o inferno se quisermos, e só nós podemos mudar tudo isso. Com esse projeto eu quis trazer justamente isso, emoção e ao mesmo tempo paz. Paz de olhar para trás e se ver livre daquilo ou até mesmo de se arrepender de ter perdido aquilo. Mas de uma forma introspectiva, e calma, com alguns efeitos psicodélicos para transpor essa ideia do nosso subconsciente ligados ao mundo digital e ao mesmo tempo está tão longe e escondido de tudo e de todos. Onde ninguém pode entrar.  É um projeto que eu precisava ter pra falar sobre essas coisas que ainda restaram em mim, é como um filho meu. Mas não é nada que eu siga uma regra, algo que eu me sinta obrigado a lançar algo de tempos em tempos, simplesmente às vezes a idéia baixa e eu componho, sem horários, sem obrigações. Me influencio muito pela cantora Bjork para esse projeto, por isso as vezes é até meio difícil de compreende-lo. Mas a ideia é justamente essa, se conectar com poucas pessoas através disso, e não fazer disso um trabalho usual. É apenas para mostrar que o meu transtorno mental ainda está bem ali, vivo dentro de mim .

EC - Novamente obrigada Phillipe pela entrevista, antes de encerrarmos, você poderia deixar uma mensagem para os leitores do Elegia e Canto?
Phillipe: Quero muito agradecer pelo interesse e pelas perguntas, isso me deixa muito honrado. Gosto muito quando alguém se interessa pelas minhas maluquices hahahaha. Continuem firmes no underground, tem muita coisa boa no nosso país que precisa de atenção, muita gente talentosa trazendo coisas diferentes pro nosso cotidiano!! Vamos aproveitar isso galera!! Até a próxima!!!!!



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