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Insaniae - Letras

Porque fomos/somos, porque somos, seremos

Estão todos a ponderar porque estão aqui
Que destino vos trouxe até mim outra vez
Olham em redor e tentam perceber
O que todos têm em comum

Estão reunidos pois esta é a minha história
Um conto amargo de desilusão

Nove estranhos estão prestes a descobrir
Porque vestem a mesma roupa
Porque estão amarrados da mesma forma
Porque agora se encontram

Uma história antiga e horrível
É a minha vez… agora têm que ouvir

Vingança… é o que procuro
Perdão… não será concedido
A Dor… é obrigatória
Alívio…

Discurso… preparado há muito
Resposta… desnecessária
O Ódio… acumulado
Morte…

No fim, espalhados pelo meu mundo
Encharcam-me as memórias, ouvem-me agora para sempre







A maior dádiva que te dou é não te tocar


As mãos frias sobre o teu pescoço, sobre o teu respirar,
Causam arrepios e provocam o pânico,
Sem controlo tentas escapar.

Na pele abrem-se as fendas que deixam transparecer o teu medo,
A tua fala fica suspensa, queres desaparecer,
Mas não reconheces nada à tua volta

Com as mão / será a minha angústia
Que uso / Devoras a voz uma vez
Para te / Roubas a inocência que fiz
Comer / Vês-te na cor da minha carne

As mãos cobrem-te a boca, perdes os sentidos, mas não acaba.
Horas que parecem séculos, a tremer…
Sem segurança nem réstia de esperança

Fraquejam-te os membros, o suor escorre,
O tempo ganha dimensões perpétuas
Enquanto vais para dentro de ti
Com o desejo do fim

Com as mão / será a minha angústia
Que uso / Devoras a voz uma vez
Para te / Roubas a inocência que fiz
Comer / Vês-te na cor da minha carne

Dormente, esqueces-te de ti
Perturbada, só pensas em mim

Cinco sentidos, outros tantos pesadelos
A visão atordoada e real
O cheiro do teu receio animalesco
O sabor podre das minhas mãos
Na tua boca, ouvir o estranho, a voz a gritar de fora
É o toque áspero que te domina a consciência
Que chegou o momento do terror

É o que sempre quiseste ser, mas que nunca te vai abandonar,
Entoas o teu choro e embalas para o esquecimento
Ah que som esse…
Olhos de vidro baloiças num movimento incessante
Rasgas a roupa, queimas a tua beleza
Só tu sabes o que é viver encarcerada

Com as mão / será a minha angústia
Que uso / Devoras a voz uma vez
Para te / Roubas a inocência que fiz
Comer / Vês-te na cor da minha carne







Habitas na memória que vais perdendo

O esquecimento dos eventos que marcam uma vida, que alteram o curso da história, leva a uma obsessão compulsiva

Documentação de tudo
E não deixar nada por escrever
Um esforço imenso para te lembrares
Dos pormenores, pessoas e datas

Não é possível, o tempo vai apagando certas passagens, e tendes a lembrar o essencial, no entanto é isso que abominas

Os factos realmente marcantes
Dignos de figurar no teu corpo
Assentas no sítio onde sabes que não vão desaparecer,
Já pertencem ao passado

Não queres esquecer
Construo tudo novamente
Habitas a tua mente
Totalmente alienada
O medo de tudo perder
Tudo se esvai na confusão
Fragmentos da vida passada
Todos os dias lembro o desgosto

Os outros não atribuem tanta importância aos factos, não possuem a tua
Minúcia, e no entanto parecem não se importar







Adormecer na cidade onde não é permitido dormir

Vaguear pelas ruas da amargura
Sem poder adormecer nem acordar
Sem saber o que está do outro lado
O que te espera, tormento ou prazer?
Percorrer este deserto
Sem almas nem vida humana
Tudo está morto e inerte
Apenas tu moves este mundo

A loucura instala-se
O rumo perde-se
Dia após noite
Pedes descanso

A tua existência estilhaçada
E o teu medo justifica a mágoa
Conheces cada pedaço de rua
Bebes a luz da madrugada
O teu corpo não responde
A tua visão alterada
Profundo desgosto pela tua sina
Inveja ultrajada do sublime luxo

Um destino inevitável
Aguardas em silêncio
Guardas os restos do que acabou
Chega a madrasta noite

Ansiedade do que virá
Estarão as pedras no mesmo sítio?
Expectativas goradas e vãs
Estarão os sons no mesmo lugar?

Os outros invadem
O que já te pertence
Começa mais um dia
Acaba mais uma vida
Os outros pertencem-te
És forçada a vivê-los
Começa mais uma vida
Acaba mais um dia








Sangue, medo, doença e dependência - a história da vida e da morte

Lembranças do sangue a escorrer pelas coxas
Permanece no inconsciente
Sem noção, o sabor doce como o primeiro
Fôlego desesperado
Nunca desaparece, acasos que aumentam o fascínio
O constante palpitar, dor que se aprende e logo se esquece

Alivia a alma, impede a vida, escorre lentamente
Assusta na anormalidade quem não conhece o seu desespero
Escorre por ti abaixo, sai pelas extremidades sem nada fazer
Beleza personificada, pelos traços do inevitável

Sem força, dependente e doente, jazes imóvel no escuro

Caiem-te dos olhos, as lágrimas divinas pintam-te o rosto
É a mascara que usas, para todos contemplarem o castigo
Tinta para te escrever fundo e cravado um livro de cicatrizes
Conta a história do passado, saboreia o efémero
O gosto que não sente, a memória

Do ódio, nasce o gosto incompreensível que te atormenta
O vazio apodrece os sentidos, desperta a cor
O sangue controla a vida e nada mais, recordar a fome
Sentir o medo de acordar, se viver é recordar, prefiro morrer

Sem força, dependente e doente, jazes imóvel no escuro









Celebração Terminal

Todos os que são capazes
De odiar estão presentes
Disponíveis para atender
Estas preces que ouvem

Chegam pelo adro de pedra
E ficam mudos a observá-la
Os pedaços estão dispostos
No local da última morada

Aberta e quebrada
Para gáudio dos presentes
Numa celebração
Reveladora dos segredos

Os mais santos da comuna
Gritam a mais falsa das blasfémias
Porque temem os que esperam
O medo da vida eterna

Respiram a vergonha
De ver a negação do mal
Que se transforma no prazer
Desta vossa contestação

O significado sem propósito
A vida sem significado
E o corpo sem vida
Constituem o festim

Somos o que te corria nas veias
O que recordamos de ti

Celebremos o fim
Guardemos os restos
É tudo o que destruímos

Viemo-nos alimentar
Para que possamos dizer
“Eu saboreei o fim”

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O texto representa a opinião do autor e não a opinião do elegiaecanto.com ou de seus editores

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